Eu não queria tocar nesse assunto, mas diante do horror de tudo que se ficou sabendo e, pior, diante de tudo o que se pode imaginar, não há como fugir do tema. Não se pode agir como os pacatos cidadãos alemães agiram diante das evidências do Holocausto, fingindo que nada estava acontecendo.
O assassinato dessa criança de 11 anos no Rio Grande do Sul traz à tona uma ferida que jaz semi-escondida no meio da nossa sociedade e na qual ninguém gosta de tocar. Trata-se da violência familiar.
É sabido, conhecido e aceito, que os pais podem e, para alguns, até mesmo devem castigar fisicamente os filhos. Há um ditado que diz: quem dá o pão, dá o castigo. Então somos um povo que admite a violência paterna como meio de educação. E qual seria o limite "normal" para essa violência? Aí é que começam os problemas. Não há como definir isso. Somos animais agressivos e, quando a agressividade se desencadeia, o auto-controle fica comprometido. A relação entre as partes é assimétrica. Os pais tem poder e força, as crianças são indefesas fisica e psicológicamente. É uma relação dominador-dominado. A situação já é ruim para muitas mulheres que são vítimas da violência dos seus parceiros. Para as crianças isso piora.
Em um ambiente sadio, os pais não perderiam jamais o controle sobre suas emoções em relação aos filhos. Infelizmente isso não é a realidade. Ainda por cima, com a deterioração das relações familiares, casamentos desfeitos, uniões instáveis, relações cada vez mais neuróticas, a situação tende a piorar. Nesse estado de coisas as crianças acabam por serem as maiores vítimas. São a parte mais frágil e sempre a mais submetida aos abusos. São usadas como moeda de troca ou de vingança entre ex-parceiros, manipuladas na relação de poder, negligenciadas, maltratadas nos novos núcleos familiares a que são obrigadas a pertencer, humilhadas, degradadas, espancadas, estupradas e mortas. A escala vai assim.
E nós como sociedade fazemos o quê? Nesse último e, sob todos os pontos de vista, deplorável caso, a sociedade brasileira falhou redondamente. Suas instituições simplesmente não funcionaram. O menino procurou espontâneamente a ajuda do Estado. E as instituições, mantidas com o dinheiro dos impostos, o que fizeram durante 1 ano? Nada que valesse a pena. Consumiu-se na burocracia, na papelada, nos procedimetos legais e deixou que uma vida inocente fosse destruída. Pergunta-se: para quê precisamos dessas instituições? Para quê precisamos de Conselhos Tutelares, Juizado de Menores? Não é exatamente para casos como esse? No mínimo, o que o Juiz, o Ministério Público ou o Conselho Tutelar deviam ter feito era ter abrigado a criança sob custódia da avó materna, ou de alguma família que lhe desse segurança até que se investigasse a situação e se determinasse a melhor solução.
É preciso fazer alguma coisa. Não podemos assistir impávidos ao holocausto quotidiano em conta-gotas desses pequenos e indefesos seres humanos.
segunda-feira, 21 de abril de 2014
domingo, 20 de abril de 2014
Esquerda direitista
Depois de ler o sensacional texto do Gabeira, "O farmacêutico do ar" (ver aqui), fiquei refletindo sobre o significado hoje no Brasil de alguém ser de direita ou de esquerda. Eu sempre me considerei de esquerda. Como o Gabeira, apoiei o PT, cheguei até a votar neles, confesso. Mas o Gabeira é o meu álibi e o meu consolo. Se até ele, que esteve na clandestinidade, que conheceu pessoalmente vários dos atuais líderes dessa facção, se enganou com essa gente, quem sou eu para ter estado a salvo desse engano?
Mas isso é uma digressão. Voltando ao assunto, o que significa ser de esquerda ou de direita no Brasil de 2014? Se o rechonchudo André Vargas com aquele punho levantado é uma imagem da atual "esquerda" brasileira, estou longe deles. Se Lula beijando a mão de Maluf também é uma imagem icônica da esquerda, quero distância. Se a "amizade" com a família Sarney ou com Fernando Collor é um pré-requisito para ser de esquerda, "tô fora"!
Prefiro estar em companhia de um Gabeira, mesmo desiludido como ele. Talvez, na nova definição política dos militantes descerebrados e dos militantes aproveitadores e oportunistas, Fernando Gabeira seja "de direita". Afinal, todos os que não concordam com essa lamaceira espalhada pelo PT, todos os que ainda procuram achar um caminho político que não seja cínico, são taxados de direitistas hidrófobos.
O PT desmoralizou tanto a atividade política que aparelhou até mesmo o conceito de esquerdismo político e apropriou-se dele, como se apropriou do Estado brasileiro. E, ao apropriar-se, destruiu-o, como está destruindo as instituições estatais. Aquilo que o PT considera hoje esquerda é de um conservadorismo atroz (Maluf), oligárquico e reacionário (Sarney), mas, antes de tudo, representa apenas um grande, retumbante e monumental atraso, cujo grande exemplo é seu aliado Marcos Feliciano. O PT criou um novo conceito político no Brasil. O PT criou a esquerda direitista.
Mas isso é uma digressão. Voltando ao assunto, o que significa ser de esquerda ou de direita no Brasil de 2014? Se o rechonchudo André Vargas com aquele punho levantado é uma imagem da atual "esquerda" brasileira, estou longe deles. Se Lula beijando a mão de Maluf também é uma imagem icônica da esquerda, quero distância. Se a "amizade" com a família Sarney ou com Fernando Collor é um pré-requisito para ser de esquerda, "tô fora"!
Prefiro estar em companhia de um Gabeira, mesmo desiludido como ele. Talvez, na nova definição política dos militantes descerebrados e dos militantes aproveitadores e oportunistas, Fernando Gabeira seja "de direita". Afinal, todos os que não concordam com essa lamaceira espalhada pelo PT, todos os que ainda procuram achar um caminho político que não seja cínico, são taxados de direitistas hidrófobos.
O PT desmoralizou tanto a atividade política que aparelhou até mesmo o conceito de esquerdismo político e apropriou-se dele, como se apropriou do Estado brasileiro. E, ao apropriar-se, destruiu-o, como está destruindo as instituições estatais. Aquilo que o PT considera hoje esquerda é de um conservadorismo atroz (Maluf), oligárquico e reacionário (Sarney), mas, antes de tudo, representa apenas um grande, retumbante e monumental atraso, cujo grande exemplo é seu aliado Marcos Feliciano. O PT criou um novo conceito político no Brasil. O PT criou a esquerda direitista.
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