quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Vergonhas nacionais

Não sei se falo do Lewandowski ou da cadelinha do Carrefour, bárbaramente assassinada. Acho melhor falar da cadela, pois Lewandowski é caso perdido de vergonha nacional.

A cadelinha do Carrefour de Osasco foi mais uma vítima da estupidez humana. Agimos como se fôssemos os donos do universo e tudo estivesse à nossa disposição, inclusive a vida de outros seres. E quando falamos de animais, automaticamente nos excluímos da categoria, como se fôssemos ETs vindo não se sabe de onde.

Esquecemos que somos macacos e de uma espécie muito perigosa para as demais. Quando se encontram, um macaco humano e outro animal, a chance de esse outro animal sofrer danos é enorme. Estão aí, para provar essa tese, as matanças de elefantes para extrair o marfim ou para simplesmente posar para fotografias, como fez o ex-rei da Espanha, Juan Carlos em época recente.

Alguns vão dizer que não é bem assim, que amamos os nossos pets. Gatos e cães chegam a ser tratados melhor que muitos outros seres humanos. Verdade, mas isso não quer dizer que somos bonzinhos com os animais em geral. Muita gente neurótica com seu cãozinho é capaz de maltratar ou negligenciar uma criança por exemplo. Estou misturando de propósito as categorias, incluindo humanos e demais  animais no mesmo grupo, o que é apenas a verdade biológica.

E, nas estatísticas, também está tudo misturado, pois fica comprovado que quase sempre quem agride animais, frequentemente é o mesmo agressor da mulher e dos filhos. A constituição psíquica é a mesma, a do covarde que tenta compensar seu sentimento de inferioridade, sobrepondo-se fisicamente aos mais fracos. Seus alvos são aqueles que certamente não conseguirão enfrentá-lo de igual para igual. Daí as crianças, as mulheres e os animais domésticos serem as suas vítimas preferenciais.
Nessa mesma categoria estão os patrões que abusam de seus empregados, sem falar no assédio.

A propósito desse tema, voltemos ao Lewandowski. O que fez ele? Usou de um poder que não é dele, mas da República, e com isso intimidou e fez calar uma voz que o incomodava. 

Por essas e por outras, é que cada vez mais o povo se volta para os militares em busca de uma proteção que já não encontra nas outras instituições. Lewandowski com esse comportamento somente comprovou que, na pessoa de certos ministros, o Supremo é, sim, uma vergonha!

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Geleia geral (2)

Como acontece frequentemente, os artistas tem uma visão que, muitas vezes, antecipa o futuro. Assim, o conceito da geleia geral, como descrição da meleca cultural na qual vivemos agora, foi, de certo modo, antecipado pelos tropicalistas.

Como chegamos a isso? Como involuímos da bossa nova para o rap, do conceito de pátria ao conceito de mátria (conforme Caetano), aquela de tetas inesgotáveis, a vaca profana (de novo, Caetano) dos nossos dias?  Da língua de Camões, para a língua dos surfistas?

Acho que a resposta é simples. Segundo C. G. Jung, a civilização é apenas uma camada de verniz muito tênue aplicada em cima de um brutal substrato bárbaro e animal e que, por qualquer motivo, ou descuido, à barbárie retornamos num piscar de olhos. Basta ir a um jogo qualquer em um estádio para comprová-lo! Por qualquer motivo, o grupo, supostamente civilizado, se transforma rapidamente em uma horda de vândalos.

Manter as conquistas civilizatórias exige muito esforço e um grande dispêndio de energia. Isso se chama EDUCAÇÃO! O processo educativo é um processo anti-entrópico e portanto exige esforço e investimento permanente de energia para se manter. Em outras palavras, é muito mais fácil destruir que construir; o caos se instala por si só, basta não fazermos nada.

Sociedades, porém, que estejam em risco, quer por falta de alimentos, ou por estarem submetidas a ditaduras ou ao crime organizado, não dispõem de recursos para investir na educação. Nessas sociedades, a regressão à barbárie se dá em poucos anos, ou meses. Mesmo em sociedades que aparentemente conseguem manter um certo padrão civilizado, como é o caso do Brasil, formam-se bolsões de barbárie localizados em áreas onde o Estado não esteja presente.

A linguagem, ou a deterioração dela, acaba por ser o sinal mais evidente dessa regressão. O vocabulário decai, a sintaxe simplifica-se, a possibilidade de nuances de expressão ou de pensamento desaparece.

É nesse contexto que se instala a geleia geral: uma mistura amórfica de conceitos misturados, ouvidos aqui e ali, retalhos culturais costurados aleatoriamente e sem qualquer projeto. Se daí sairá algo que preste, só o tempo dirá.  Tomando como exemplo a música popular brasileira, sabemos que involuímos da bossa nova para a tropicália, daí para o rock made in Brasil, depois para o hip-hop, o rap e chegamos à Jojô Toddynho: "Que tiro foi esse, viado? Quer causar, a gente causa. Quer sambar, a gente pisa. Quer causar a gente causa; quem olha o nosso bonde pira."


sábado, 17 de novembro de 2018

Geleia geral

Nos anos 70, o movimento tropicalista lançou o conceito de que vivíamos no Brasil, um ambiente cultural mistureba, ao qual Torquato Neto chamou Geleia Geral (nome de uma de suas composições).

O conceito não era, em si, depreciativo, até porque a Tropicália pretendia ser uma continuação do Modernismo e seu movimento antropofágico. Caetano está para Tarsila do Amaral, assim como Manuel Bandeira está para Tom Zé.

O movimento antropofágico defendia que o Brasil absorveria tudo o que vinha de fora, devorava tudo sem qualquer critério ou distinção, e depois devolvia esse material reciclado e transformado em cultura brasileira. Continuando desse ponto, esse material cultural reciclado seria designado como Geleia Geral.

Essa, a definição por excelência, do que a cultura passou a ser no Brasil: uma geleia geral. Antes disso, predominava a cultura "alienígena". Estudávamos latim no colégio, líamos os "clássicos", falávamos empolado nos salões e nas ocasiões oficiais. Ninguém entendia (menos ainda entende agora) as letras dos nossos hinos. "Ouviram do Ipiranga as margens plácidas, de um povo heróico o brado retumbante" era a frase-terror dos alunos de análise sintática! Onde está o sujeito? E o objeto direto? Quando não era isso, era Camões!

Pois bem, nos anos 70 passamos a viver as reformas do ensino e, pouco a pouco, a geleia geral foi se introduzindo sorrateiramente no currículo escolar e hoje nos damos conta de que os jovens não precisam ir à escola para aprender coisa alguma. Se forem à escola para absorver essa geleia, é pura perda de tempo e de dinheiro. Eles já vem com ela e, possivelmente, terão mais a transmitir à escola do que a escola a eles. A geleia geral está em toda parte e, principalmente, na internet e nas redes sociais.

Ninguém sabe, nem quer saber, quem foi Camões, mas todos sabem o nome do rapper da hora. Ninguém lê mais de 3 parágrafos, nem tem tempo e paciência nem mesmo para um vídeo de mais de 3 minutos.

De repente, nos perguntamos: isso é bom ou ruim? Como foi que isso aconteceu? O que nos levou a isso e aonde isso nos levará?

Respostas (ou melhor, hipóteses) vejam nos próximos capítulos.

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