Emblemática a condução do Zé Genoíno à prisão exatamente no dia do trabalho, ele que foi presidente do Partido dos Trabalhadores... Como dizia Joelmir Beting: "O PT começou como um partido de presos políticos e acabou sendo um partido de políticos presos."
É evidente que a indigência moral da classe política não é privilégio petista. Já se disse isso mil vezes. A questão é que o PT se apresentava à sociedade brasileira como uma alternativa sadia a essa política nojenta, de trocas de favores, de conchavos, de privatização do Estado, de roubalheira pura e simples.
E bastou chegar ao poder para se revelar um partido tão sujo quanto aqueles a quem criticava. Talvez até mais, pois vinha faminto de cargos, mordomias e maracutaias.
A falta de pudor chegou ao ponto de considerar natural e defensável aliar-se a representantes do mais sujo e do mais profundo atraso que há na atividade política brasileira. O que parecia inconcebível, ver Lula elogiando Sarney, tornou-se corriqueiro e quando o PT foi em comitiva beijar a mão do Maluf já não causou mais espanto. Lula, Dilma, Collor, Sarney, Maluf, Renan, são todos gatos, ou melhor, ratos, do mesmo balaio.
Agora que as coisas estão mais definidas e mais claras, algumas outras começam a fazer sentido. O sindicalismo no Brasil, até quase o final da ditadura militar, nunca foi de esquerda. Eram simples pelegos sem ideologia. Quem juntou-se ao sindicalismo, na formação do PT, e o coloriu de vermelho, foram as comunidades eclesiais de base da Igreja Católica e os intelectuais acadêmicos. Foram esses que emprestaram ao PT a fachada de esquerda e até o discurso marxista. Emprestaram a pele, mas não mudaram o lobo, que continuou sendo o que sempre foi. Outro ponto que faz sentido é a atuação do gen. Golbery escolhendo a dedo o sindicalista Lula da Silva para transformá-lo em líder de uma "oposição confiável" que se fazia necessária na transição para a democracia. Antes, Lula, que seria um líder cooptado e domesticado e controlador das massas operárias, do que uma liderança mais afoita e mais genuinamente esquerdista que poderia forçar demais a mão e errar na dose de oposição consentida. Foi desse caldo que surgiu o PT e que, tão logo começou a abocanhar cargos executivos nas prefeituras, pôs em prática o seu esquema de privatização das instituições em favor do partido e do desvio de verbas sistemático e contumaz. Os puros e ingênuos ainda continuaram por um bom tempo acreditando no discurso, até que os fatos se impuseram com mais força e eles foram obrigados a optar: aderir ou cair fora. Assim sairam ou foram saídos do PT: Luiza Erundina, Plínio de Arruda Sampaio, Hélio Bicudo, Vladimir Palmeira, Fernando Gabeira, Marina Silva e outros. Acho que dessa turma, ainda continua no partido somente o senador Eduardo Suplicy, mas esse é tão lento que nem conta.
O PT já não engana a mai ninguém. Isso ficou absolutamente claro hoje com a situação carregada de significado simbólico que foi o ex-presidente dessa agremiação, José Genoíno, se dirigir para o xilindró em pleno 1º de Maio. E a grande esperança que surge foi explicitada pelas vaias e apupos com que os petistas foram recebidos e impedidos de discursar no evento da CUT e no evento da Força Sindical em São Paulo.
quinta-feira, 1 de maio de 2014
terça-feira, 29 de abril de 2014
Somos todos macacos
A Europa deu uma resposta exemplar ao ato de racismo de um torcedor no estádio Villareal no domingo e que repercutiu no mundo inteiro. Já identificou o torcedor e já o puniu com banimento perpétuo do estádio. Se fosse aqui ainda estaríamos procurando o autor, com grandes possibilidades de jamais identificá-lo.
Na Coréia (do Sul, claro!), depois da tragédia do naufrágio de uma balsa com várias mortes, o primeiro-ministro renuncia ao cargo declarando: "fui incompetente para evitar que tragédias como essa acontecessem e fui incompetente em tomar as providências necessárias depois que aconteceu, portanto só me resta pedir desculpas e renunciar ao cargo". Exemplar também.
Enquanto aqui, um pilantra fantasiado de deputado, pego traficando influência no ministério da Saúde, faz doce anunciando que renuncia e depois que renuncia à renúncia. Deve ter aprendido essa técnica com o Mercadante. E ninguém se espanta.
Renunciar ao pudê, às mordomias, à dinheirama de acesso fácil e sem dono, quem há de? Nessa terra descoberta por Cabral não existem amadores como esse primeiro-ministro sulcoreano. Aqui somos todos profissionais. Sabemos enrolar desculpas que já carregamos desde pequenos na ponta da língua. Ninguém acredita nelas, mas todos continuamos a nossa vidinha, como se acreditássemos, como se isso fosse um fato inevitável, uma contigência da natureza, tal como chover ou fazer sol.
Aqui nestes trópicos exuberantes, com esse sol, esse mar, esse céu azul de abril, alguma coisa tinha de dar errado para compensar tamanha generosidade da natureza.
Macacos bípedes somos todos nós, seres humanos, mas em alguns lugares a macacada aprendeu algo que se chama civilização. E a civilização exige um preço. O preço da renúncia ao instinto animal de cada um em benefício da preservação do direito de todos.
Na Coréia (do Sul, claro!), depois da tragédia do naufrágio de uma balsa com várias mortes, o primeiro-ministro renuncia ao cargo declarando: "fui incompetente para evitar que tragédias como essa acontecessem e fui incompetente em tomar as providências necessárias depois que aconteceu, portanto só me resta pedir desculpas e renunciar ao cargo". Exemplar também.
Enquanto aqui, um pilantra fantasiado de deputado, pego traficando influência no ministério da Saúde, faz doce anunciando que renuncia e depois que renuncia à renúncia. Deve ter aprendido essa técnica com o Mercadante. E ninguém se espanta.
Renunciar ao pudê, às mordomias, à dinheirama de acesso fácil e sem dono, quem há de? Nessa terra descoberta por Cabral não existem amadores como esse primeiro-ministro sulcoreano. Aqui somos todos profissionais. Sabemos enrolar desculpas que já carregamos desde pequenos na ponta da língua. Ninguém acredita nelas, mas todos continuamos a nossa vidinha, como se acreditássemos, como se isso fosse um fato inevitável, uma contigência da natureza, tal como chover ou fazer sol.
Aqui nestes trópicos exuberantes, com esse sol, esse mar, esse céu azul de abril, alguma coisa tinha de dar errado para compensar tamanha generosidade da natureza.
Macacos bípedes somos todos nós, seres humanos, mas em alguns lugares a macacada aprendeu algo que se chama civilização. E a civilização exige um preço. O preço da renúncia ao instinto animal de cada um em benefício da preservação do direito de todos.
domingo, 27 de abril de 2014
Não vai ter Copa!
A Copa do mundo pode até acontecer. Afinal são muitos e milionários os interesses envolvidos. Mas o gostinho que o governo esperava, de que o povo, esquecido de seus problemas, saisse às ruas, eufórico, vibrando com a Seleção e dando uma banana pros críticos do governo, esse gostinho o governo Dilma não vai ter.
Ao contrário, se dará por satisfeito se a Copa transcorrer sem maior participação popular, ou seja, sem maiores problemas que não aqueles inevitáveis originados da desorganização e da falta de planejamento que são marcas nacionais. A participação popular na Copa é problemática para o governo porque, devido ao grau generalizado de insatisfação, por um triz tudo pode descambar. E a repressão polícial só vai piorar as coisas.
É por essas e por outras que Blatter e Dilma cancelaram os discursos. Será a primeira abertura de Copa do Mundo sem nenhuma palavra, quer do chefe de estado do país sede, quer do presidente da entidade mundial do futebol! Só por issa, essa Copa já entraria para a história. Mas, provavelmente, vai ter muito mais.
Se o Brasil ganhar, jogando em casa, não terá feito mais que a obrigação. E se o Brasil perder, a insatisfação do povo acumulada com a roubalheira, a inflação, a calamidade da saúde, a violência, será adicionada à frustração do fracasso esportivo.
Pior ainda, será logo depois, na ressaca da folia, quando tivermos que voltar à realidade nua e crua e nos confrontar com o fato de que esse evento quase nada trouxe de benefício para o país, exceto para aqueles grupelhos de sempre que se locupletaram com os gastos mirabolantes nos estádios.
Agora não tem mais jeito. Mesmo que o governo quisesse, não pode cancelar o evento. A imagem do Brasil, que já não está boa, ficaria em uma situação lastimável. Arrependido está o Sr. Blatter, como já declarou, e deve estar também a dona Dilma. Enquanto isso, Lula, o mentor de tudo, fica caladinho, escondidinho, fingindo, como sempre, que não tem nada a ver com isso.
Ao contrário, se dará por satisfeito se a Copa transcorrer sem maior participação popular, ou seja, sem maiores problemas que não aqueles inevitáveis originados da desorganização e da falta de planejamento que são marcas nacionais. A participação popular na Copa é problemática para o governo porque, devido ao grau generalizado de insatisfação, por um triz tudo pode descambar. E a repressão polícial só vai piorar as coisas.
É por essas e por outras que Blatter e Dilma cancelaram os discursos. Será a primeira abertura de Copa do Mundo sem nenhuma palavra, quer do chefe de estado do país sede, quer do presidente da entidade mundial do futebol! Só por issa, essa Copa já entraria para a história. Mas, provavelmente, vai ter muito mais.
Se o Brasil ganhar, jogando em casa, não terá feito mais que a obrigação. E se o Brasil perder, a insatisfação do povo acumulada com a roubalheira, a inflação, a calamidade da saúde, a violência, será adicionada à frustração do fracasso esportivo.
Pior ainda, será logo depois, na ressaca da folia, quando tivermos que voltar à realidade nua e crua e nos confrontar com o fato de que esse evento quase nada trouxe de benefício para o país, exceto para aqueles grupelhos de sempre que se locupletaram com os gastos mirabolantes nos estádios.
Agora não tem mais jeito. Mesmo que o governo quisesse, não pode cancelar o evento. A imagem do Brasil, que já não está boa, ficaria em uma situação lastimável. Arrependido está o Sr. Blatter, como já declarou, e deve estar também a dona Dilma. Enquanto isso, Lula, o mentor de tudo, fica caladinho, escondidinho, fingindo, como sempre, que não tem nada a ver com isso.
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